A revista britânica The Economist repercutiu o escândalo envolvendo o Banco Master e afirmou que o caso ampliou, entre eleitores brasileiros, a percepção de que o Supremo Tribunal Federal carece de imparcialidade. Segundo a publicação, o episódio ultrapassa os limites do sistema financeiro e expõe a proximidade entre empresários, políticos e integrantes do Judiciário em Brasília.
A reportagem descreve o colapso do Banco Master como resultado de um modelo de negócios baseado na venda agressiva de certificados de depósito bancário com juros elevados, apesar da baixa liquidez da instituição. Enquanto isso, seu controlador, Daniel Vorcaro, mantinha um padrão de vida luxuoso, o que agravou a repercussão pública do caso.
Para a Economist, o problema central não está apenas na falência de um banco médio, mas nos vínculos cultivados por Vorcaro ao longo dos anos com figuras centrais da elite política e institucional do país. “Os efeitos do colapso do Banco Master vão além do setor bancário”, afirma a revista, ao destacar que o caso expôs conexões que atingem diretamente a reputação do STF e do Congresso Nacional.
“Esses laços reforçam a impressão entre os eleitores brasileiros de que a Suprema Corte do país carece de imparcialidade”, conclui o texto.
Contratos e encontros sob escrutínio
A reportagem dedica atenção especial ao ministro Alexandre de Moraes. Segundo a Economist, o Banco Master firmou um contrato de cerca de US$ 24 milhões, ao longo de três anos, com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Especialistas jurídicos ouvidos pela revista classificaram como anormais tanto os valores quanto a vagueza do contrato.
Pouco depois, um jornal brasileiro revelou que Moraes manteve telefonemas e encontros com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, nas semanas que antecederam a liquidação do banco. A Procuradoria-Geral da República encerrou a investigação envolvendo o casal, alegando ausência de provas de irregularidades.
Moraes afirmou que as conversas com Galípolo trataram de assuntos não relacionados ao Banco Master. Ainda assim, a Economist observa que sua reação posterior chamou atenção. Em janeiro, o ministro determinou a abertura de investigação para apurar se a Unidade de Inteligência Financeira e a Receita Federal haviam vazado informações sobre o contrato.
Toffoli e o peso das relações pessoais
O texto também menciona o ministro Dias Toffoli. A revista recorda uma viagem de Toffoli em jato particular ao lado de um advogado do Banco Master, realizada no período em que o sorteio do STF o designou relator do caso envolvendo a instituição financeira.
Além disso, a reportagem cita investimentos superiores a US$ 1 milhão no resort Tayayá, pertencente aos irmãos do ministro. Para a Economist, esses episódios reforçam a percepção de relações excessivamente próximas entre membros do Judiciário e empresários influentes de Brasília.
Pressões políticas e o papel do Centrão
A análise se estende ao campo político. A revista aponta a atuação de parlamentares do Centrão contra o avanço das investigações. Entre eles, o senador Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil no governo Bolsonaro, que teria tentado barrar uma apuração no Congresso e apoiado um projeto que ampliaria o poder do Legislativo para destituir o presidente do Banco Central.
O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, também é citado por ter defendido com veemência a aquisição do Banco Master pelo BRB, mesmo diante de alertas contrários de analistas do mercado. A reportagem menciona ainda Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, apontado como um dos maiores doadores individuais das campanhas de Jair Bolsonaro em 2022 e de Tarcísio de Freitas em São Paulo.
Galípolo emerge fortalecido
Na leitura da Economist, o único vencedor claro do episódio foi Gabriel Galípolo. Segundo a revista, o presidente do Banco Central resistiu às pressões políticas para salvar o Banco Master e manteve a linha técnica da instituição.
Após o encerramento do caso, Galípolo passou a defender maior autonomia administrativa, orçamentária e financeira para o Banco Central, além da autonomia operacional já existente. Para a revista, essa mudança fortaleceria a supervisão sobre instituições financeiras e reduziria a exposição do órgão às “manobras duvidosas de Brasília”.
Ao tratar o escândalo como um problema sistêmico, e não apenas como um caso isolado de má gestão bancária, a Economist coloca o Banco Master no centro de um debate mais amplo sobre confiança institucional. O diagnóstico é claro: quando as fronteiras entre poder econômico, político e judicial se tornam difusas, a credibilidade do Estado como um todo entra em risco.