Epstein buscou agência no Brasil para facilitar contato com modelos
Documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam que o financista Jeffrey Epstein cogitou, em 2016, a aquisição de agências de modelos no Brasil. A iniciativa teria como objetivo facilitar o contato direto com modelos brasileiras, segundo registros oficiais da investigação.
Arquivos obtidos pelas autoridades americanas indicam que Epstein autorizou a negociação de acordos de confidencialidade para ter acesso a dados financeiros da Ford Models. As mensagens fazem parte de um conjunto de documentos que detalham estratégias usadas pelo empresário para ampliar sua rede de contatos no setor da moda.
Trocas de e-mails datadas de outubro de 2016 mostram diálogos entre Epstein e Ramsey Elkholy. Nas mensagens, Elkholy apresenta informações sobre empresas do ramo no Brasil, citando agências como Elite e L’Équipe, além de concursos de novos talentos. Investigações anteriores apontam que Elkholy atuava como intermediário, apresentando mulheres ao financista norte-americano.
Em uma das comunicações, Elkholy descreve as vantagens comerciais da possível aquisição. Segundo ele, a estrutura de concursos de modelos permitiria maior proximidade com candidatas iniciantes.
“Este seria um bom investimento se você quisesse construir sobre uma marca já consolidada e, é claro, com muitas oportunidades para se encontrar com modelos, mas acho que não com o mesmo acesso direto do concurso, em que a maioria das garotas são caipiras sem experiência como modelos”, escreveu Elkholy.
Agências negam qualquer envolvimento
O proprietário da Ford Models Brasil, Décio Restelli Ribeiro, negou qualquer negociação envolvendo a venda da agência. Em declaração à Folha, o empresário afirmou que nunca manteve contato com Epstein ou representantes do financista e que desconhecia sua identidade até a divulgação de sua morte, em 2019.
“Minha empresa não está à venda, nunca quis vender a Ford. Fiquei chocado”, afirmou Ribeiro. Ele também negou ter assinado acordos de confidencialidade, apesar de Elkholy alegar, em e-mails, que mantinha contato com o gestor da unidade brasileira.
“Nunca conheci, conversei ou tive contato com esse Jeffrey Epstein. Fui saber quem era esse cara só quando ele morreu”, reforçou.
A Ford Models Brasil opera sob a gestão de Ribeiro desde 1995 e teve a propriedade total da marca consolidada no país em 2020.
Documentos citam o Brasil milhares de vezes
A base de dados do governo dos Estados Unidos reúne cerca de 3.900 arquivos com menções ao Brasil no contexto das investigações envolvendo Epstein. O material inclui comunicações eletrônicas, registros bancários, fotografias e depoimentos judiciais, além de referências a políticos e figuras públicas de diversos países.
A única manifestação direta de Epstein sobre agências brasileiras ocorreu em 2 de outubro de 2016. Na ocasião, ele autorizou a continuidade da análise financeira da Ford Models.
“Pode assinar o acordo de confidencialidade e pegar os números da Ford. Vou estar por Nova York na quarta-feira se você tiver tempo”, escreveu Epstein.
Jeffrey Epstein morreu sob custódia da Justiça norte-americana em 2019, enquanto aguardava julgamento por crimes de natureza sexual. O caso segue gerando repercussões internacionais e levantando questionamentos sobre a extensão de sua rede de influência.