Como o iCloud do iPhone derrubou uma organização criminosa bilionária: MC Ryan, MC Poze e influencers presos movimentaram quase R$ 2 Bilhões

A megaoperação Narcofluxo, que resultou na prisão dos cantores MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, teve um ponto de partida tecnológico inesperado: a conta do iCloud de Rodrigo de Paula Morgado. O contador e operador financeiro do grupo depositava total confiança na segurança da nuvem da Apple, mantendo ali um backup detalhado que se tornou a peça central para a Polícia Federal mapear a movimentação de mais de 1,6 bilhão de reais oriundos de atividades ilícitas.

Os dados foram obtidos originalmente em 2025, durante a Operação Narco Bet. Ao analisar os arquivos salvos automaticamente na nuvem, os agentes encontraram planilhas, conversas, contratos e registros de transferências que revelaram uma organização autônoma dedicada à lavagem de capitais em larga escala. O backup funcionou como uma espécie de diário financeiro do crime, permitindo o cruzamento de dados entre empresas de fachada, laranjas e celebridades.

A engrenagem da lavagem de dinheiro

O esquema utilizava uma estrutura profissional para dar aparência lícita a recursos vindos de apostas ilegais, rifas digitais e tráfico de drogas. A Polícia Federal identificou que a organização operava como uma instituição financeira clandestina, utilizando técnicas sofisticadas para afastar o dinheiro de sua origem criminosa.

A investigação detalha as funções de cada envolvido na estrutura:

  • MC Ryan SP: Apontado como líder e principal beneficiário. Ele utilizava suas empresas de produção musical para misturar receitas legítimas com dinheiro de apostas e rifas.
  • MC Poze do Rodo: Vinculado a empresas que faziam a circulação de recursos de rifas clandestinas, integrando a rede de redistribuição de valores.
  • Rodrigo Morgado: O contador que articulava as transferências e gerenciava a proteção patrimonial dos artistas.
  • Tiago de Oliveira: Atuava como braço direito de Ryan, centralizando os recursos e negociando imóveis de luxo para o cantor.

O papel da mídia e das redes sociais

Um dos pontos mais sensíveis da operação é o envolvimento de grandes influenciadores e páginas de alcance massivo. Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei, foi identificado como o operador de mídia da organização. Segundo a Polícia Federal, ele recebia pagamentos diretos para promover os conteúdos dos artistas e das plataformas de apostas, além de atuar na gestão de crises de imagem para o grupo.

A influenciadora Chrys Dias também é citada como financiadora e divulgadora do esquema. O objetivo dessa frente era usar a credibilidade digital para atrair novos apostadores e consolidar a imagem pública dos envolvidos. Durante as buscas, a polícia apreendeu itens que simbolizam a ostentação do grupo, incluindo carros de luxo e um colar com a imagem do traficante Pablo Escobar encontrado na casa de MC Ryan SP.

A Justiça já autorizou o bloqueio de 1,63 bilhão de reais e o sequestro de bens em diversos estados. As defesas dos cantores afirmam que as transações são lícitas e que aguardam acesso aos autos do processo para prestar os devidos esclarecimentos.

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