Trump lança “Conselho da Paz” em Davos e propõe reconstruir Gaza fora da ONU

Novo órgão concentra poder nas mãos dos EUA, cobra adesão bilionária de países e reacende debate sobre o esvaziamento das instituições multilaterais

Por décadas, a Organização das Nações Unidas foi o principal palco das grandes negociações globais. Nesta quinta-feira (22), em Davos, Donald Trump apresentou uma alternativa, ou um desafio direto.

O presidente dos Estados Unidos lançou oficialmente o chamado “Conselho da Paz”, uma nova estrutura criada por seu governo para supervisionar a reconstrução da Faixa de Gaza e, segundo ele, atuar em outros conflitos internacionais no futuro. A iniciativa nasce envolta em controvérsia: concentra poder, relativiza o papel da ONU e mistura diplomacia, geopolítica e negócios de forma pouco convencional.

Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, Trump adotou o tom que lhe é característico. Disse que o conselho terá autoridade “para fazer praticamente tudo o que quisermos” e afirmou que nunca chegou a dialogar diretamente com a ONU. Ainda assim, declarou que o novo órgão poderá “trabalhar em conjunto” com as Nações Unidas, uma afirmação que diplomatas europeus veem com ceticismo.

A mensagem central ficou clara: Washington quer liderar o processo sem dividir o comando.


Um conselho sob medida

De acordo com o estatuto obtido pela agência Reuters, Trump será presidente vitalício do Conselho da Paz, com poder de veto e controle direto sobre decisões estratégicas. Países interessados em um assento permanente precisarão desembolsar US$ 1 bilhão, valor que será administrado pelo próprio governo norte-americano.

A proposta rompe com a lógica tradicional do multilateralismo, baseada em equilíbrio institucional e rotatividade de poder. Para críticos, o conselho se aproxima mais de um consórcio político-financeiro do que de um organismo internacional clássico.

Cerca de 30 líderes participaram da cerimônia em Davos, entre eles o presidente argentino Javier Milei, o húngaro Viktor Orbán e representantes do Oriente Médio e da Ásia. O Brasil foi convidado, mas o presidente Lula ainda não respondeu oficialmente.


“Nova Gaza”: reconstrução, turismo e mercado imobiliário

Além do anúncio político, o evento também apresentou um plano concreto para a Faixa de Gaza. Batizado de “Nova Gaza”, o projeto prevê a reconstrução do território com zonas residenciais, polos turísticos, áreas comerciais, agricultura e infraestrutura portuária.

O responsável pela apresentação foi Jared Kushner, conselheiro de Trump e seu genro, que descreveu Gaza como uma “excelente localização para o mercado imobiliário”, com potencial turístico à beira-mar. O plano inclui arranha-céus e complexos urbanos modernos, uma visão que contrasta fortemente com a realidade social, humanitária e política da região após anos de conflito.

A proposta levanta uma questão sensível: quem decide o futuro de Gaza, e para quem ele será reconstruído?

Até o momento, não está claro se representantes palestinos terão participação efetiva no conselho, o que alimenta dúvidas sobre legitimidade e viabilidade política.


ONU paralela ou pragmatismo radical?

O Conselho da Paz nasce oficialmente como um órgão consultivo, responsável por assessorar um governo de transição palestino tecnocrático, atualmente em formação no Cairo. Na prática, porém, sua estrutura concentra poder e recursos em torno dos Estados Unidos.

Diplomatas europeus ouvidos pela Reuters afirmam temer que o conselho funcione como uma “ONU paralela”, enfraquecendo princípios básicos da Carta das Nações Unidas, como soberania compartilhada e mediação multilateral.

Para o professor Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas, o risco é evidente: “Há um temor real de que o Conselho se torne uma ONU controlada pelos Estados Unidos, com pouca prestação de contas internacional”.


O dilema brasileiro

Para o Brasil, o convite de Trump cria um impasse diplomático. Lula tem defendido publicamente a criação de um Estado palestino e criticado operações militares israelenses em Gaza. Aceitar integrar o conselho poderia gerar cobranças por coerência; recusar, por outro lado, pode tensionar a relação com Washington em um momento de reaproximação comercial.

A decisão ainda está em análise, mas o constrangimento político já está posto.


Mais que Gaza, um teste global

O Conselho da Paz vai além da reconstrução de Gaza. Ele testa uma ideia mais ampla: é possível substituir instituições multilaterais por estruturas mais rápidas, centralizadas e orientadas por poder econômico?

Trump aposta que sim. Parte da comunidade internacional responde com cautela, e desconfiança.

O conselho ainda é um projeto em formação, mas já revela algo essencial sobre o cenário global atual: a disputa não é apenas por territórios ou conflitos específicos, mas por quem define as regras do jogo internacional.

E essa disputa, ao que tudo indica, está só começando.

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