Com principal artéria da economia bloqueada, mercado sinaliza crise

O Estreito de Ormuz não é apenas uma passagem geográfica entre o Irã e Omã; é o ventrículo direito do coração econômico global. Quando Teerã decide, em um ato de retaliação e desespero, interromper esse fluxo, o mundo não assiste apenas a um conflito militar, mas ao colapso imediato da logística que sustenta a vida moderna. Os números que chegam nesta terça-feira são estarrecedores: o custo para operar um superpetroleiro saltou para mais de 420 mil dólares por dia. Para o consumidor final, isso significa que a “fatura do medo” já foi emitida e chegará em breve a cada prateleira de supermercado e bomba de combustível.

A tese central deste momento é clara: a liberdade de comércio é uma ficção sem a garantia da ordem física. O que estamos vendo é a destruição da propriedade e do livre trânsito, pilares fundamentais da civilização. Quando o Irã ameaça atirar em qualquer navio que tente atravessar o Estreito, ele não está apenas atacando oponentes políticos, mas sequestrando o direito de nações soberanas, como a Coreia do Sul, que já ordenou a retirada de seus navios, de exercerem suas atividades comerciais. O mercado de GNL acompanhou o pânico, com tarifas subindo 40% em um único dia após o Catar interromper sua produção por segurança.

Petroleiros mantendo-se afastados do Estreito de Ormuz em meio ao conflito no Irã

Essa paralisia revela a fragilidade do modelo “just-in-time” no qual o Ocidente se viciou. Dependemos de rotas que podem ser bloqueadas por um punhado de mísseis e uma retórica inflamada. Frédéric Bastiat, o célebre economista liberal, falava sobre “o que se vê e o que não se vê”. O que se vê hoje são as explosões e os porta-aviões; o que não se vê é a destruição silenciosa de cadeias produtivas inteiras que dependem de cada barril que agora está parado em Fujairah ou Singapura.

A saída de grandes operadores, como a Hyundai Glovis, e o aviso do ministério marítimo coreano para que empresas se abstenham de operar na região mostram que o risco se tornou impagável. Não há seguro que cubra o fim da previsibilidade. A concorrência pelos poucos navios disponíveis para o restante de março será feroz, e analistas já preveem que o frete ultrapassará os 100 mil dólares para o gás natural liquefeito em tempo recorde.

O custo do transporte de petróleo do Oriente Médio para a Ásia atingiu o maior valor histórico em meio ao conflito entre EUA e Irã

O fechamento de Ormuz é o teste definitivo para a diplomacia e para a força militar das potências. Se a passagem não for garantida, o mundo mergulhará em uma recessão inflacionária de proporções históricas. Fica a dúvida: o que essa crise nos mostra sobre a nossa dependência extrema de uma única artéria global? Até que ponto a segurança energética de uma nação pode ser deixada à mercê de regimes que utilizam o comércio como arma de destruição em massa?

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