A imagem do navio oceanográfico Professor W. Besnard tombado no Porto de Santos nesta manhã é um retrato amargo da negligência com o patrimônio histórico e científico brasileiro. O gigante que um dia rompeu as águas geladas da Antártida para colocar o Brasil no mapa da pesquisa polar, agora sucumbe à ferrugem e à infiltração de água em um cais de serviço.
A embarcação operou pela Universidade de São Paulo (USP) entre 1967 e 2008, sendo o palco de descobertas fundamentais para a oceanografia nacional. O momento de maior glória ocorreu em 1982, na Operação Antártica I, quando o Besnard provou que a ciência brasileira tinha fôlego para cruzar os oceanos mais perigosos do mundo.
Uma década de abandono e burocracia
O declínio do Besnard começou logo após sua aposentadoria. Sem verba para manutenção e com custos de docagem elevados, o navio passou por um “jogo de empurra” entre instituições. Tentativas de transformá-lo em museu em cidades como Ilhabela ou Santos falharam repetidamente por falta de patrocínio e apoio governamental.
Em 2016, uma esperança surgiu com a aprovação da doação do navio ao Uruguai, que pretendia restaurá-lo. No entanto, o tempo da burocracia foi mais lento que o tempo da corrosão. O navio permaneceu parado, acumulando água e problemas estruturais que culminaram no incidente desta manhã.
Riscos ambientais e o futuro do casco
A prioridade da Autoridade Portuária de Santos agora é isolar a área. Existe uma preocupação real com o vazamento de fluidos que ainda possam estar nos tanques da embarcação. Mergulhadores devem realizar uma inspeção técnica para avaliar se é possível realizar o reflutuamento ou se o destino final do Professor W. Besnard será o desmonte total como sucata metálica.
Para a comunidade científica, o naufrágio parcial do Besnard é o fim simbólico de uma era de ouro da pesquisa marinha, deixando um alerta sobre como o país trata seus heróis de aço.