Durante discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, o presidente Donald Trump voltou a criticar aliados europeus, defendeu sua ambição de assumir o controle da Groenlândia e fez afirmações enganosas sobre a Organização do Tratado do Atlântico Norte, além de repetir alegações incorretas sobre gastos militares e benefícios obtidos pelos Estados Unidos.
A seguir, a verificação dos principais pontos do discurso.
O que foi dito
“Depois da guerra, nós devolvemos a Groenlândia para a Dinamarca. Foi uma decisão estúpida. Mas nós devolvemos.”
Verificação
A afirmação é enganosa.
Trump provavelmente se referia a um acordo firmado durante a Segunda Guerra Mundial entre os Estados Unidos e representantes da Dinamarca. No entanto, esse acordo não transferiu soberania nem controle territorial da Groenlândia para os Estados Unidos em nenhum momento.
Em 1941, após a ocupação nazista da Dinamarca, o embaixador dinamarquês em Washington assinou um pacto concedendo aos Estados Unidos o direito de instalar bases militares na Groenlândia, em troca da defesa da ilha. O acordo foi firmado sem a participação direta do governo dinamarquês, que estava sob ocupação.
Segundo Steven Press, professor de história da Universidade Stanford, o pacto tinha fragilidade jurídica, pois o embaixador atuava como uma espécie de governo no exílio. Ainda assim, o acordo não concedia soberania, apenas direitos militares limitados.
Mikkel Runge Olesen, pesquisador do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, afirma que o embaixador jamais entregou a ilha. Ele concedeu apenas direitos de base.
O próprio texto do acordo reconhece explicitamente a soberania dinamarquesa, descrevendo a Dinamarca como país soberano sobre a Groenlândia.
Após a guerra, em 1951, um novo acordo militar voltou a reconhecer formalmente a soberania da Dinamarca, ao mesmo tempo em que permitiu a continuidade da presença militar americana.
Conclusão: os Estados Unidos nunca “devolveram” a Groenlândia porque nunca foram donos dela.
O que foi dito
“Antes de mim, a Otan não pagava nem 2 por cento do PIB. A maioria não pagava nada. Os Estados Unidos bancavam praticamente 100 por cento da Otan. Eu acabei com isso.”
Verificação
A afirmação é imprecisa e exagerada.
Os países da Otan fazem dois tipos de contribuição:
- Contribuição direta ao orçamento comum da aliança, proporcional à renda nacional.
- Compromisso político de investir uma porcentagem do PIB em defesa nacional.
Os Estados Unidos nunca pagaram 100 por cento da Otan. Antes do primeiro mandato de Trump, o país contribuía com cerca de 22 por cento do orçamento central da aliança. Esse percentual foi reduzido para aproximadamente 15 por cento ao longo dos anos seguintes.
Em relação aos gastos militares, os países da Otan firmaram em 2014 o compromisso de atingir 2 por cento do PIB em defesa até 2024. Em 2016, apenas quatro países cumpriam a meta. Esse número cresceu progressivamente, chegando a mais de 30 países em 2025.
Especialistas reconhecem que a pressão de Trump teve influência nesse aumento, mas o avanço também foi impulsionado pela invasão russa da Ucrânia.
Trump afirmou corretamente que os países concordaram em elevar o alvo para 5 por cento do PIB até 2035. No entanto, nenhum país havia atingido esse patamar até o fim de 2025.
O que foi dito
“O que ganhamos com a Otan foi nada, exceto proteger a Europa da União Soviética e agora da Rússia.”
Verificação
A afirmação é falsa.
A cláusula de defesa coletiva da Otan foi acionada apenas uma vez em sua história, após os ataques de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos.
Na ocasião, aliados da Otan participaram ativamente da resposta americana, incluindo:
- Operações aéreas de vigilância sobre o território dos Estados Unidos.
- Patrulhamento naval no Mediterrâneo.
- Envio de dezenas de milhares de soldados ao Afeganistão.
A Dinamarca, por exemplo, enviou cerca de 18 mil militares ao longo da missão, com 43 mortos entre 2002 e 2014.
Conclusão: os Estados Unidos foram diretamente beneficiados pela Otan em um momento crítico de sua história recente.
Conclusão geral
O discurso de Trump em Davos misturou fatos reais, interpretações distorcidas e afirmações falsas. Embora algumas críticas à distribuição de gastos na Otan tenham base parcial na realidade, declarações sobre soberania da Groenlândia e ausência de benefícios para os Estados Unidos não se sustentam diante dos registros históricos e dos dados oficiais.