Em um país tão dividido como o Brasil, é desanimador observar como a direita — que se apresenta como alternativa sensata e coerente ao “inimigo vermelho” — tem repetido muitos dos mesmos vícios políticos. Em vários momentos, inclusive, a esquerda demonstrou mais união e capacidade de planejamento. Mas, no caso da direita brasileira, o problema é ainda mais profundo. Apesar de estar em crescimento, dois fatores colocam sua força em risco: a ausência de uma identidade consolidada e o poder institucional e cultural que a esquerda já possui.
O caminho óbvio para a direita seria outro: consolidação, formação de um imaginário próprio (identidade) e alianças reais. Qualquer pessoa com bom senso percebe que estes são os pontos fracos mais evidentes da direita conservadora (ou reacionária) no país.
A tentativa desesperada de Sergio Moro de disputar o Governo do Paraná neste momento vai contra qualquer esforço de unir a direita. A seguir, explico por quê:
Moro tem sido bem-sucedido como senador, e não faz sentido abandonar esse cargo para concorrer ao Executivo. Se o poder não subiu à cabeça do ex-juiz — o que seria a única explicação plausível para trocar um posto legislativo por outro executivo —, ele poderia fazer um trabalho muito mais relevante enfrentando um dos maiores problemas institucionais do país: a arbitrariedade no Supremo Tribunal Federal e as leis que limitam a liberdade. Moro já mostrou isso ao defender reformas no STF, como o fim dos mandatos vitalícios, o recall popular, a limitação de decisões monocráticas e um código de ética. Ou seja: o lugar natural de Moro é no Legislativo (ou até no Judiciário). Fragmentar a direita em busca de um cargo de maior prestígio é ilógico e egocêntrico.
Enquanto isso, Ratinho Jr. vem realizando um bom trabalho no Paraná, com amplo apoio das prefeituras — isso é união política prática. Romper essa estrutura estável é enfraquecer a direita no estado e, por consequência, no país inteiro. As movimentações políticas recentes deixaram algo evidente: os prefeitos estão satisfeitos com Ratinho Jr. e não veem motivo para desorganizar aquilo que está funcionando. O estado está em boa direção; mudar isso agora seria imprudente. Obras públicas avançam, a educação progride, a infraestrutura melhora, a segurança pública apresenta resultados — por que alterar esse cenário?

O que realmente precisa mudar, no Paraná e no Brasil, é esse “descontentamento autopredatório”: um povo eternamente insatisfeito, crítico, incapaz de reconhecer avanços e sempre buscando mudança pela mudança. Querem transformar tudo, mas não sabem em que direção ir. Esse comportamento devora a si mesmo: torna qualquer progresso insustentável, inviabiliza planos de longo prazo e destrói projetos antes mesmo de maturarem.
Por isso qualquer iniciativa pública que demande mais de um mandato é vista como fantasia — não porque seja impossível, mas porque será sabotada internamente. Todo vereador, prefeito, deputado, governador ou presidente sabe que é arriscado iniciar um projeto que ultrapasse seu próprio mandato, já que a próxima eleição é incerta. O ditador tenta prolongar sua permanência no poder; o cético faz apenas projetos curtos e pouco impactantes; o sábio trabalha para garantir que seu sucessor não destrua sua obra, como um herdeiro tolo que gasta a fortuna do pai sem compreender como ela foi construída.

