O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, voltou a defender nesta segunda-feira (17) a manutenção dos juros brasileiros em um nível considerado restritivo enquanto a demanda por bens e serviços continuar crescendo em ritmo superior à capacidade de oferta da economia.
A declaração foi feita durante a 27ª Conferência Anual do Banco Santander, em São Paulo. Segundo Galípolo, o Brasil atravessa um período de mercado de trabalho forte e expansão da atividade, fatores que ajudam a sustentar o consumo, mas também podem manter pressão sobre os preços quando a oferta não acompanha o mesmo ritmo.
A taxa Selic está atualmente em 14% ao ano. O Banco Central realizou cortes de 0,25 ponto percentual em cada uma das quatro reuniões mais recentes do Comitê de Política Monetária, fazendo a taxa recuar de 15% para o patamar atual.
Apesar do início desse ciclo de redução, Galípolo evitou sinalizar aceleração dos cortes. A própria ata mais recente do Copom condiciona as próximas decisões ao comportamento da inflação, da atividade econômica e de outros indicadores considerados relevantes pelo comitê.
O argumento central apresentado pelo presidente do BC é que os juros funcionam, neste momento, como mecanismo para tentar restabelecer equilíbrio entre oferta e demanda. Quando famílias e empresas demandam mais produtos e serviços do que a economia consegue fornecer sem dificuldades, empresas podem encontrar espaço para elevar preços.
Ao manter o crédito mais caro, a política monetária tende a reduzir parte desse impulso. O efeito, porém, também alcança financiamento de imóveis, veículos, capital de giro das empresas e outras operações dependentes de crédito.
A fala de Galípolo ocorre justamente no dia em que novos dados do IBC-Br reforçaram sinais de perda de velocidade da economia. O indicador do Banco Central recuou 0,64% em junho e avançou apenas 0,18% no segundo trimestre, depois de um início de ano mais forte.
Essa desaceleração será observada de perto pelo Copom. Quanto mais evidentes forem os efeitos do aperto monetário sobre consumo, produção e inflação, maior tende a ser a quantidade de informações disponíveis para avaliar a velocidade dos próximos cortes. Isso não significa, porém, que uma redução específica esteja garantida.

Galípolo também destacou outro lado do problema: a capacidade de oferta. Para ele, aumentos de produtividade são importantes para permitir que a economia cresça de forma mais sustentável sem transformar todo avanço de renda e consumo em pressão inflacionária.
A discussão é especialmente importante porque juros elevados resolvem apenas parte da equação. A política monetária atua principalmente sobre a demanda; expansão de produtividade, investimentos e capacidade produtiva depende de um conjunto mais amplo de fatores econômicos.
Para consumidores e empresários, portanto, o recado dado pelo presidente do Banco Central é de cautela. O processo de queda dos juros já começou, mas a autoridade monetária ainda não considera encerrada a necessidade de manter condições financeiras restritivas.
As próximas decisões deverão continuar sendo tomadas reunião a reunião, sem compromisso antecipado com ritmo específico de redução.



