Depois de quase seis meses de conflito com os Estados Unidos, autoridades e integrantes do establishment político iraniano demonstram preocupação com a possibilidade de novas medidas econômicas de Washington aprofundarem a deterioração das condições de vida da população e reacenderem protestos dentro do país.
A avaliação aparece em reportagem publicada pela Reuters nesta segunda-feira (17), baseada em entrevistas com autoridades iranianas, pessoas ligadas ao sistema político, um ex-integrante do governo e moradores do país. Parte das fontes falou sob condição de anonimato.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu aumentar a pressão econômica contra Teerã. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, também afirmou que novas medidas poderiam ser anunciadas. Até a publicação da reportagem, o governo americano ainda não havia detalhado exatamente quais seriam essas ações.
O Irã já enfrentava problemas econômicos antes do início do atual conflito, incluindo inflação elevada, desvalorização da moeda, sanções e dificuldades no setor energético. A guerra acrescentou danos à infraestrutura, interrupções no comércio, perda de produção e maiores custos logísticos.
Os dados citados pela Reuters mostram a dimensão da pressão sobre as famílias. A taxa anual de inflação iraniana alcançou 66% em julho, enquanto os preços ao consumidor estavam 87,9% acima do nível de um ano antes. A inflação dos alimentos chegou a 128% em doze meses, segundo o Centro Estatístico do Irã.
Além do aumento do custo de vida, empresários relatam paralisação de projetos, fechamento de negócios e demissões. O comércio com países do Golfo também foi afetado pela guerra e pelas restrições na região.

Uma das maiores preocupações do governo iraniano é que o agravamento da situação econômica se transforme novamente em instabilidade política. O país já registrou protestos relacionados às condições econômicas, e a Reuters aponta que autoridades aumentaram medidas de segurança diante do temor de novas mobilizações.
Outro problema é o abastecimento. O bloqueio naval e as dificuldades nas rotas tradicionais fizeram o Irã recorrer com maior intensidade a corredores terrestres e ao Mar Cáspio para transportar mercadorias.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, reconheceu recentemente que os problemas do país se multiplicaram enquanto as receitas diminuíram. Segundo informações citadas na reportagem, o Irã está vendendo menos petróleo e recolhendo menos impostos de empresas atingidas pela crise.
O abastecimento de gasolina também se tornou uma preocupação. Um parlamentar iraniano informou que a produção diária havia alcançado aproximadamente 130 milhões de litros, enquanto o consumo estava em torno de 137 milhões de litros.
O cenário cria uma combinação delicada para Teerã: manter a estratégia militar e diplomática no conflito enquanto tenta evitar que a perda de renda, a inflação e a escassez ampliem a insatisfação doméstica.
As eventuais novas medidas americanas ainda não foram detalhadas. Por isso, não é possível afirmar qual será seu impacto concreto. O que a investigação da Reuters mostra é que, dentro do próprio sistema iraniano, já existe preocupação de que um novo choque econômico possa ter consequências que ultrapassem os indicadores financeiros e atinjam diretamente a estabilidade política do país.



