Registros digitais de um contrato firmado entre o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e o então controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, apontam que uma versão do documento foi modificada por um perfil do Office 365 identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. A informação foi divulgada nesta terça-feira (1º) pelo jornal O Estado de S. Paulo e posteriormente confirmada por diferentes veículos.
Os dados foram encontrados nos metadados de um arquivo extraído do celular de Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal em novembro de 2025 durante a primeira fase da Operação Compliance Zero. Esse tipo de registro técnico pode armazenar informações como autor do documento, data de criação, horário das alterações e usuário associado às modificações.
A sequência divulgada começa em 11 de janeiro de 2024, quando Viviane enviou pelo WhatsApp a Vorcaro uma minuta do contrato de prestação de serviços advocatícios para análise. Quatro dias depois, em 15 de janeiro, às 21h22, o banqueiro devolveu o documento com marcas de revisão e informou que havia incluído uma alteração na cláusula I.3.
Cerca de uma hora e 40 minutos depois, às 23h04, os metadados registraram uma nova modificação no arquivo. No campo referente ao usuário responsável pela última alteração aparece o perfil “Ministro Alexandre de Moraes”. Na mesma versão, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, aparece como autor original do documento.
O escritório Barci de Moraes confirmou nesta terça-feira que Alexandre de Moraes teve acesso ao contrato e realizou alterações no arquivo. Segundo a banca, o ministro foi consultado pelo setor de compliance, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se existia algum impedimento legal à contratação do Banco Master.
A justificativa do escritório é que Moraes nunca havia julgado causas envolvendo o Banco Master e que o contrato não previa atuação da banca perante o Supremo Tribunal Federal. Segundo a manifestação, diante da ausência de impedimentos identificados, o acordo foi assinado e os serviços jurídicos foram prestados.

O contrato previa 36 pagamentos mensais de R$ 3 milhões líquidos ao escritório. Com os tributos previstos no próprio documento, cada parcela chegava a aproximadamente R$ 3,646 milhões em valor bruto, levando o acordo a cerca de R$ 131,27 milhões caso fosse executado integralmente.
Uma versão final foi encaminhada por Viviane a Vorcaro em 17 de janeiro. Nos dias seguintes, os dois continuaram discutindo pelo WhatsApp a forma de assinatura. Em 22 de janeiro, Vorcaro perguntou se deveria assinar eletronicamente ou enviar as vias físicas. No dia seguinte, Viviane respondeu que estava fora do Brasil e pediu que as cópias fossem encaminhadas a Guilherme Benazzi. Na mesma mensagem, solicitou que o material fosse enviado em um “envelope lacrado e confidencial”.
Em 24 de janeiro, a advogada voltou a pedir a Vorcaro uma cópia assinada digitalmente do contrato. Os prints dessas conversas fazem parte do material recuperado do celular do ex-banqueiro e reproduzido nas reportagens sobre o caso.
Documentos fiscais do Banco Master encaminhados à CPI do Crime Organizado, no Senado, indicam que aproximadamente R$ 80,2 milhões foram transferidos ao escritório entre 2024 e 2025, em 22 pagamentos. A banca já havia afirmado anteriormente que os serviços foram prestados por uma equipe de 15 advogados, com 94 reuniões de trabalho e 36 pareceres jurídicos durante o período do contrato.
Os repasses foram interrompidos em novembro de 2025, mês em que Vorcaro foi preso na primeira fase da Operação Compliance Zero e o Banco Master acabou liquidado.
Os registros ampliam o escrutínio sobre a relação entre o escritório da família do ministro e o Banco Master, mas é importante separar os fatos das conclusões jurídicas. A existência do contrato, as conversas entre Viviane e Vorcaro e o acesso de Moraes ao documento estão documentados e, no último caso, reconhecidos pelo próprio escritório. Isso, isoladamente, não equivale a uma decisão judicial de que tenha ocorrido crime ou irregularidade na contratação.
A discussão agora envolve o contexto dessa relação, os serviços efetivamente prestados e outras informações extraídas das investigações sobre o Banco Master. O ministro André Mendonça, relator de uma frente do caso no STF, também encaminhou à Procuradoria-Geral da República material da Polícia Federal relacionado a mensagens encontradas no celular de Vorcaro, para manifestação da PGR.








